Eu tinha uns cinco anos. Fui morar lá naquela casa, naquele bairro bonito.
Ela tinha um portão muito grande, e não dava pra ver a rua. Tinha os muros muito altos e do lado de fora haviam plantas cheias de espinhos. Coroa de Cristo é o nome da planta. Apesar de às vezes eu me machucar, eu achava bonita, porque entre os espinhos haviam flores.
Eu imaginava que aquele jardim era o jardim do meu reino, e que a minha casa era o meu castelo.
Eu lembro que naquele jardim eu vi pela primeira vez um besouro rinoceronte. Também lembro da minha reação ao ver um rinoceronte tão pequeno. Eu sabia até onde ele morava, e as vezes eu ia visitar ele e contar pra ele as coisas que eu tinha aprendido. Aí, um dia, pelo caminho eu achei uma toca bem pequena, e um sapo saiu lá de dentro. Enfim, eu fiz amizade com o sapo também, inclusive dei um nome pra ele: Herbert.
O Herbert era um sapo bem simpático. Acho que ele gostava de me ouvir também.
Um dia eu achei um gafanhoto de noite, e peguei ele pra cuidar.
Fiz um jardim e uma piscina pra ele. Meu pai disse que ele não ia gostar muito.
Mas eu pensei: "Quem é que não quer ter uma piscina gigante e um jardim bonito?"
No outro dia eu lembro de chorar de raiva dos passarinhos que o devoraram de noite.
Eu tinha um cachorro também. O Joca. Ele era engraçado e muito grande. Ele gostava de brincar com a bolinha e me derrubava às vezes. Mas eu não lembro o que aconteceu com ele.
Tive um coelho. Ele fugia pra rua sempre.
Era engraçado ver o meu pai correndo atrás dele.
Eu cresci um pouco.
Então meu pai me deu uma bicicleta, e foi naquela casa que eu aprendi a andar, e cair todos os meus tombos. Eu tinha um punhado de amigos.
E lembro de passar a tarde toda fazendo corrida de bicicleta na rua.
E como tinham árvores naquela rua. Um dia bati em uma e caí.
Uma vez eu não entendi direito o que aconteceu. Meu pai começou a guardar todas as coisas, e todos os meus livros dentro de caixas.
Estávamos nos mudando de lá.
Eu lembro de todos os meus amigos me dando tchau pela janela do carro.
Eu fui embora de lá.
De vez em quando vou visitar uns amigos, e passo por lá.
A casa não tem mais o portão grande. Na verdade, a casa nem existe mais.
Mas sempre que eu passo lá na frente, eu me vejo correndo e andando de bicicleta, me vejo caindo um tombo e passeando com o Joca na rua.
É um tipo de lembrança boa. Que deixa uma saudade muito forte.
Daqui alguns meses eu vou fazer 19 anos, e às vezes encontro um besouro rinoceronte em alguma praça, ou algum sapo num dia de chuva. Sinto vontade de conversar com eles. Falar da infância.
Eu contava tudo, e eles nunca contaram nenhum segredo meu pra ninguém.
Mas hoje me sinto feliz em saber que tenho alguns amigos besouros e uns amigos sapos. Eles até parecem pessoas. Isso é estranho.
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